Vila Real, Julho de 1972
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Por José Mota Freitas
Se a edição de 1971 foi a que trouxe os carros mais espectaculares a Trás-os-Montes, a de 72 foi seguramente uma das que apresentou um plantel mais homogéneo. Aguardava-se uma luta feroz entre os Lola, onde pontificavam o T280 (3 litros) do Team BIP e os 4 T-290 da Écurie Bonnier e os muitos Chevron B21, com especial relevo para os da Escuderia Montjuich/Tergal e os dos rápidos britânicos Peter Hanson e John Burton. Outra das vedetas presentes era o Abarth-Osella igual ao que então dominava o Europeu de Sport 2 Litros pelas mãos de Arturo Merzário. O carro, viatura oficial da equipa de Enzo Osella era guiado pelo experiente italiano “PAM”.
Os treinos acabaram por partir a grelha em 2 blocos, pois os concorrentes que treinaram na 6ª Feira fizeram-no com o piso seco, ao contrário dos de Sábado que apanharam a pista completamente encharcada.
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Cartaz oficial da prova para 1972 (colecção Manuel
Taboada)
Selos com a imagem do cartaz oficial
(colecção família Pinto da Fonseca)
INSCRITOS
colecção M.Taboada
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VERIFICAÇÕES
Sábado, 8 de Julho de 1972: imagem rara
do Aurora Porsche de Manuel Nogueira Pinto no momento em que entrava no Jardim
da Carreira para as verificações técnicas. Nos treinos suplementares de Domingo,
um princípio de incêndio na zona de Mateus impossibilitou a sua participação na
prova. (foto e
legenda: Manuel Dinis)
A traseira do Aurora Porsche de
Nogueira Pinto. Se, devido à desistência prematura do Porsche, a foto anterior
já era pouco comum, esta que retrata a traseira do primeiro protótipo feito pelo
Mestre Eduardo Santos, julgamos que será perfeitamente inédita.
(foto: Manuel Dinis)
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TREINOS
Foto de JPS, provavelmente feita durante os treinos,
onde podemos ver Vic Elford com o Lola
T-290 nas boxes. Atrás do Lola azul, está o comissário do ACP Norte Walter
Cudell (de bigode e óculos) a ver se tudo se passa na conformidade, e vê-se
igualmente (de barbas) o ex-responsável pelo jornal «Motor» na altura, Avelãs
Coelho. Refira-se a propósito que W. Cudell é sogro de Adolfo Araújo Lima, um
dos co-fundadores do "Targa Clube", clube nortenho de grandes tradições.
Imagem das boxes, no decurso dos treinos de
Sábado, com três dos Lola T-290 FVC da Ecurie Bonnier (faltava só o carro de
Elford, o único T290 da equipa que não ostentava o tradicional amarelo da
escuderia) Em primeiro plano o carro de Nicha Cabral (com o piloto de pé, à
esquerda), seguido dos modelos idênticos de Jorge de Bragation (que estava
dentro do carro) e Claude Swietlick.
(Foto: JPS)
John Burton nas boxes, com o Chevron B-21 FVC
decorado com as cores das máquinas fotográficas Canon (Foto: JPS)
Tempestade em Trás-os-Montes" - nos treinos
de Sábado, como é sabido, abateu-se forte borrasca sobre Vila Real,
levando a que muita gente se refugiasse sob os abrigos que encontrou. Aqui vemos
Carlos Santos no seu belo Porsche 907 "decorado" com um guarda-chuva, tendo
atrás de si o Lola T-290 de Enrico Pasolini (que viria a despistar-se na
corrida). Veja-se o
tipo de "tecto" que tinha a bancada principal do circuito transmontano...
(Foto: JPS)
(nota: os concorrentes em itálico, só treinaram no Sábado, com chuva)
1º Carlos Gaspar
2º José Maria Juncadella
3º Ernesto Neves
4º John Bridges
5º Roger Heavens
6º Martin Raymond
7º Peter Hanson
8º Claude Larrieu
9º Paco Josa
10º Nogueira Pinto
11º Américo Nunes
12º Mário Gonçalves
13º Miguel Correia
14º “Pam”
15º Jorge de Bragation
16º Vic Elford
17º Claude Swietlick
18º John Gray
19º Mário Cabral
20º “Bing Jock”
21º Peter Humble
22º John Burton
23º Carlos Santos
24º Renzo Pasolini
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Corrida
A corrida foi extremamente interessante. “Pam”, avariou o carro durante as voltas de reconhecimento e já não participou. Vic Elford fez uma partida “relâmpago” e ultrapassou logo 11 concorrentes nos primeiros metros, passando já à frente na primeira volta, aproveitando-se também do acidente do anterior comandante José Maria Juncadella que bateu na curva da Salsicharia. Elford (o homem que dizia “prefiro conduzir um bom Protótipo a um mau Formula 1) deu então um autêntico “recital” de condução durante 6 voltas, aumentando sempre a vantagem. No entanto o seu Lola-Chevy-Vega com as cores da Antar teve problemas de refrigeração e o inglês desistiu, deixando o comando para o Chevron com as cores da Canon que era conduzido por John Burton, o qual sublinhe-se saiu da 22ª posição da grelha de partida! Burton comandaria até à 30ª volta, altura em que teve que parar na box para trocar uma roda. Regressaria à pista já com uma volta de atraso. Carlos Gaspar andou quase sempre em 2º lugar e com a paragem de Burton passou para o comando, para júbilo do muito público presente (entre os quais eu me incluo). No entanto os grandes problemas de alimentação que o Lola sempre apresentou, obrigaram-no a reduzir o andamento para evitar uma paragem para reabastecer. Para a frente passa assim Claude Swietlick, ao volante de um dos Lola-Bonnier. O francês, piloto experiente de 30 anos de idade e que havia partido do 17º lugar da grelha, passou para o comando na antepenúltima volta e obteve assim em Vila real uma das mais importantes vitórias da sua carreira, terminando com uma vantagem de 15 seg. sobre o Chevron de John Bridges. Curiosamente, Swietlick quando terminou a prova não sabia que tinha ganho e referiu que as corridas em Vila Real “fazem-no recuar no tempo 20 anos, quando as corridas eram formidáveis”. A nós fazem-nos recuar 30….
Carlos Gaspar, com o ar mais confiante do mundo, e o Lola T-280 do Team BiP
no primeiro lugar da grelha de partida. De pé, perto do Lola DFV vemos José
Cabral, comissário do ACP Norte. Na corrida, apesar de ter estado 3 voltas no comando (depois da
desistência do Lola T-290 de Vic Elford) gaspar sabia que o Lola BiP dificilmente poderia vencer.
O maior consumo do Ford Cosworth V8 de 3000cc não permitia fazer a prova toda
sem abastecimento ou, em alternativa, sem baixar o ritmo. Além disso,
problemas de estabilidade relacionados com o chassis (ou travões, segundo outras
fontes) ajudariam também ao fim do
sonho. Andava como o diabo, curvava como um camelo e travava como um cabrito
, dizia Carlos Gaspar num artigo sobre a corrida, publicado no Expresso em
1997. Nicha Cabral que também experimentou um T-280 em 1972, dizia que
Era um carro muito violento e difícil de guiar depressa.
(foto: JPS)
Para ver uma reportagem da revista Autosport britânica
clique aqui
Um dos três carros da
Red Rose / Escuderia Montjuich,
na grelha de partida. Este Chevron B-21 Ford
FVC de 1900 cc foi pilotado por John Bridges, tendo conseguido o 4º tempo da
grelha de partida, logo atrás do Lotus 62 de Ernesto Neves. Se alguns pilotos
estrangeiros vinham a Vila Real devido aos prémios de participação oferecidos
pela organização, outros vinham exclusivamente pelo prazer de conduzir no grande
e difícil circuito transmontano.
(foto: FS, in "Motores 72" col. RG)
Bela imagem da partida, com o Lola T-280 de
Carlos Gaspar a sair da pole, e o Lotus 62 de "Néné" que saiu da 3ª posição. (O
Chevron B-21 de Juncadella que partiu do segundo posto, não se vê na imagem)
Apesar de sair da "pole" Carlos Gaspar sabia que em condições normais não
poderia vencer em Vila Real: "em primeiro lugar, eu fiz as minhas contas e
verifiquei que, se andasse para ganhar, ficava sem gasolina antes do final da
corrida de 250 quilómetros" contou o piloto do Porto ao Expresso, muitos
anos depois. Gaspar ainda tentou que a organização baixasse o número de voltas,
mas nada conseguiu. Por outro lado, o Lola T-280 de 3 litros era muito mais
complicado de pilotar do que os Chevron ou Lola de 2 litros.
(foto: programa oficial, colecção
Manuel Taboada)
Foto
da Curva da Salsicharia, no final da
primeira volta, onde o Chevron B-21 de José Maria Juncadella, autor de um bom
inicio de corrida, iria bater dentro de instantes. Logo atrás, o Lola T-290 de
Vic Elford, que desde a partida já tinha recuperado 11 posições (!) e viria a
herdar o comando da prova, alguns metros à frente. Logo atrás do carro azul, um
outro Lola, mas desta vez um T-280, ( com motor Ford Cosworth V-8 de 3 litros) e
o resto do pelotão, com Peter Hanson, John Burton, John Bridges, Ernesto
Neves e Roger Heavens. O futuro vencedor Claude Swietlick não aparece nesta foto
porque tinha saído apenas da 17ª posição da grelha e vinha ainda um pouco
atrasado. (foto:
Motor, col.JMF)
Carlos Gaspar (Lola T-280 DFV), Peter Hanson
(Chevron B-21 FVC), John Burton (Chevron B-21 FVC) e John Bridges (Chevron B-31
FVC) num animado momento da corrida em que disputavam a liderança da prova.
Peter Hanson viria mesmo a fazer a volta mais rápida desta corrida de 1972.
(Imagem extraída de um filme,
colecção Manuel Taboada)
Com o Chevron B-21 de Paco Josa atrás de si,
e ainda no meio do segundo pelotão, Claude Swietlick não sonhava que iria vencer
a corrida. No entanto, o piloto suíço fez aqui uma grande corrida, não se
deixando esmorecer por ter partido do fundo da grelha de partida, nem se
intimidando com adversários equipados com montadas teoricamente mais eficazes do
que o seu Lola T-290.
(Imagem extraída de um filme, colecção Manuel Taboada)
Vic Elford pouco depois de ter alcançado o
comando da prova e... pouco antes de desistir com problemas mecânicos. O Lola
T-290 FVC foi inscrito pela Ecurie Bonnier, decorado com as cores dos cigarros
Gitanes e ostentava uma referência à Ecurie Filipinetti na frente da
carroçaria...
(Imagem extraída de um filme, colecção Manuel Taboada)
Chevron B-21 de John Burton. O piloto britânico foi
um dos comandantes da prova de Grande Turismo de Desporto, tendo perdido a provável vitória na corrida
devido a um arreliador furo. Tendo começado a
correr em provas internacionais cerca de 3 anos antes desta foto, Burton
estenderia a sua carreira por quase 20 anos, pois em 1998 ainda participou na
prova do ISRS de Donnington, ao volante de um Courage C-41 com motor Porsche.
(foto: JPS)
O Lola T-280 de Carlos Gaspar, na curva da Salsicharia, a caminho de um difícil
segundo lugar da geral.
Como era pratica corrente nesta época entre muitos dos pilotos "da metrópole",
neste ano, o Lola T-280 do Team BiP ainda iria disputar
a "temporada africana" onde Carlos Gaspar e Ferreira de Moura somaram azares e
desistências nas duas provas em que participaram, ou seja, nas 6 Horas de Nova
Lisboa e nas 3 Horas de Luanda, ambas vencidas pelo Chevron B-21 de Roger
Heavens
(foto: FS, in "Motores 72" col. RG)
Américo Nunes, com o Porche 906 à saída da
curva da Salsicharia. Em 1972, o então já antiquado Carrera 6 apenas permitiria
ao piloto de Lisboa alcançar o 9º lugar da geral, numa operação que se saldou
pela obtenção de mais alguns pontos para o título que no final do ano seria seu.
Este 906 tinha sido adquirido em meados de 1971 a Joaquim Filipe Nogueira,
e anteriormente tinha sido de Nick Gold que por sua vez o comprara a Geoffrey
Edmonds, tendo inclusivamente disputado algumas provas do Mundial de Marcas de
1968, nas mão deste último piloto. Um detalhe curioso que perdurava desde
o tempo de Jeff Edmonds era a ausência dos "spoilers" dianteiros,
normalmente utilizados nos 906. De um modo geral, esta configuração apenas era
usada em circuitos onde era importante a velocidade máxima , sendo menos comum
(embora não inédito) o seu emprego noutro tipo de pistas.
Uma história interessante sobre estas participações de Américo Nunes nos circuitos nortenhos era que na ausência de meios para o fazer de outro modo, levava o Carrera 6 (sem matrícula) a rodar pela estrada entre Lisboa e Vila do Conde ou Vila Real! Sendo Nunes um personagem bastante popular a nível nacional, os homens da Polícia de Viação e Trânsito facilitavam a operação, fazendo de conta que não viam o ilegalíssimo Porsche amarelo a passar... (Foto: o Volante, colecção Rui Queirós)
O Porsche 907 de Carlos Santos. Este era o carro que
Rui Guedes quase tinha destruído aqui, no ano anterior e, por esta altura, já
estava algo ultrapassado em relação aos modernos protótipos que vinham correr a
Vila Real. No entanto, a concorrência no CNV era menos forte e o piloto
continuou a utilizar o 907 ao longo da época, por vezes intercalando-o com o seu
outro carro, o antigo 906 psicadélico, convertido pelo Mestre Eduardo Santos em
Aurora-Porsche. (foto:
col. Família Pinto da Fonseca)
Lola T-290 FVC da
Ecurie Bonnier, que Nicha Cabral, apesar de adoentado,
levou do 19º lugar da grelha até ao 4º lugar da geral. Em 1972, o piloto do
Porto fez uma série de corridas com os Lola T-280 e 290 amarelos, desta equipa,
cujo proprietário, o veterano piloto sueco Jo Bonnier, tinha falecido no mês
anterior, nas 24 Horas de Le Mans.
(foto: col. Família Pinto da
Fonseca)
O Lola T-290/Ford FVC da Écurie Bonnier
que o piloto suíço Claude Swietlick conduziria até uma inesperada vitória. Tão
inesperada que nem o próprio piloto se apercebeu que tinha passado para o
comando da prova, após a paragem nas boxes do Chevron B-21 de John Burton que
liderava a corrida. O facto de ter partido da 17ª posição e de só ter
alcançado o comando muito perto da meta, faz com que sejam escassas as imagens
deste Lola, vencedor da edição de 1972 do circuito de Vila Real. Swietlick
estreara-se no Mundial de Marcas com um Porsche 911 S, em Le Mans de 1970, e
apenas faria 3 provas deste campeonato no decurso da sua curta carreira internacional,
incluindo uma presença nos 1000 Km de Nurburgring de 1972 com um Lola T-290, e
acompanhado por um tal "Nicha" Cabral...
(foto: colecção
Manuel Taboada)
Perfil do Lola T-290 / FVC de Claude
Swietlick, vencedor da corrida de 1972. (desenho
de Ricardo Santos)
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CLASSIFICAÇÃO
1º Claude Swietlick Lola 35 v
2º John Bridges Chevron 35
3º Carlos Gaspar Lola 35
4º Mário Cabral Lola 35
5º John Burton Chevron 35
6º Paco Josa Chevron 34
7º Roger Heavens Chevron 34
8º Claude Larrieu Lola 33
9º Américo Nunes Porsche 31
10º Peter Humble Chevron 31
11º Carlos Santos Porsche 28
NC Enrico Pasolini Lola 24
NC Martin Raymond Daren 22
NC Peter Hanson Chevron 22
NC John Gray Chevron 11
NC Ernesto Neves Lotus 8
NC Vic Elford Lola 6
NC “Bing Jock” Abarth 6
NC Miguel Correia Porsche 3
NC Jorge de Bragation Lola 3
MC José Maria Juncadella Chevron 1
NA Mário Gonçalves Austin
NA “Pam” Abarth-Osella
NA Nogueira Pinto Porsche
MELHOR VOLTA
Peter Hanson (Chevron B21) – 2.46.27, à média de 171,107 na 19ª volta.
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Reportagem de José Mota Freitas, legendas de Ricardo Grilo e Carlos Gilbert, imagens das colecções de RG, JPS, família Pinto da Fonseca, Manuel Taboada, José Mota Freitas e Rui Queirós. Para a realização das legendas foi consultado o artigo sobre VR72 que Carlos Guerra publicou no Jornal de Clássicos nº55